Nesta edição: o retrato que aparece quando se junta num lugar só quem faz bushcraft no Brasil, e um brasileiro contando a uma escola britânica como a gente acampa.
O bushcraft brasileiro em 183 nomes
São 183 nomes no mapa, de norte a sul, e ele continua aberto. Não é lista de eventos: é gente, e é raro ver tudo isso num lugar só.
O mapa do bushcraft brasileiro nasceu de uma pergunta simples: quem faz isso aqui? A resposta estava espalhada. Cada escola no seu canal, cada encontro no seu perfil, cada conversa no seu grupo, e nenhum lugar onde a coisa toda pudesse ser vista de uma vez.
Hoje são 183 nomes no ar, entre mestres, escolas, encontros, canais, grupos, marcas, cutelaria, livros e gente que entalha, mais as referências de fora que o meio daqui cita todo dia. Não é uma lista fechada, e não vai ser. Dá para tirar um retrato, e ele cresce a cada quinzena.
A maior categoria, de longe, é canais e programas: são 65. Canal de YouTube, podcast, programa. Não é por acaso. Bushcraft se aprende vendo alguém fazer, e vídeo faz isso melhor do que qualquer texto conseguiria. O meio escolheu a linguagem que serve ao que ele ensina.
Depois vêm os livros, 16 deles. Onze são de autor brasileiro escrevendo sobre o mato daqui, e os outros são os clássicos que o meio cita sem parar, de Nessmuk a Kochanski. Tem gente publicando com constância, e boa parte desses títulos já passou pelas mãos de quem faz este boletim.
O mapa é do meio, não nosso. É colaborativo: a gente organiza e mantém, mas quem faz ele crescer é quem manda o próprio nome, ou o nome de alguém que faltava. Somos 183 hoje, e tem muito mais gente por aí. É só a gente se achar.
O que a gente sabe está espalhado em grupo
Numa conta só existem 35 grupos do meio, 22 deles com mensagem na mesma semana da varredura. Alguns passam de sete mil mensagens. Nada daquilo se acha depois.
Uma varredura na própria conta, feita em agosto, achou 35 grupos do meio. Vinte e dois deles trocaram mensagem na mesma semana da varredura, vários todo dia, alguns passam de sete mil mensagens, e o maior deles passa de oito mil. Isso numa conta só, de uma pessoa só. Multiplique por quem está lendo isto.
É muita coisa boa circulando. Dúvida respondida por quem sabe, foto de peça pronta, aviso de data, indicação de fornecedor, técnica explicada com paciência para quem está começando. O meio conversa, e conversa bem.
O problema é o que acontece no dia seguinte. Mensagem de grupo não tem busca que preste, não tem endereço, não se cita e não se corrige. A resposta que alguém levou vinte minutos digitando some embaixo de outras duzentas até ninguém achar mais. E o mesmo assunto reaparece em vários grupos na mesma semana, cada vez do zero.
Não é defeito de ninguém, é natureza da ferramenta. Grupo serve para conversar, não para guardar. O que faltava era o outro lado: um lugar com endereço fixo, que não exige estar em grupo nenhum para consultar, e que continue lá daqui a dois anos.
É isso que o mapa e este boletim tentam ser. Não para substituir os grupos, que é onde a vida acontece. Para que o que passou por eles não se perca. E se der certo, para servir de porta de entrada também: muita gente que está começando não sabe nem que esses grupos existem.
E tem uma coisa que só aparece olhando o conjunto: os mesmos assuntos voltam sempre. Água, primeira faca, fogo em lenha molhada, onde acampar sem pagar caro. Não é falta de resposta, é falta de onde deixar a resposta. E é boa notícia disfarçada: se a pergunta de iniciante se repete, é porque tem gente nova chegando toda semana.
Dambrós, quase duzentos machados, na estante da Woodlore
Leocir Dambrós é do Paraná, tem um canal com 30 mil inscritos, coleciona machados e machadinhas, perto de duzentos modelos diferentes, e acaba de virar fonte de uma escola britânica de referência.
Em 26 de agosto, a Woodlore, escola fundada por Ray Mears em 1983, publicou no próprio blog uma matéria sobre Leocir Dambrós, do canal Bushcraft Dambros, assinada por Lisa Semple.
A porta de entrada foi uma faca. O Dambrós escreveu para a escola mandando fotos de uma Morakniv comemorativa dos 30 anos da Woodlore, que ele ganhou de um amigo que mora na Nova Zelândia. A conversa a partir dali virou a matéria inteira.
O texto conta a trajetória dele, que começou vendo o programa Tracks nos anos 90, quando ouviu a palavra bushcraft pela primeira vez e descobriu que aquilo que já praticava desde criança tinha nome. E conta da coleção: machados e machadinhas, perto de duzentos modelos diferentes, que ele credita ao ensino do Ray Mears ter ajudado a entender e a usar melhor. Duzentos modelos de machado é assunto que dá matéria inteira, e a gente pretende voltar nisso aqui, se ele topar contar.
E aqui está o ponto. A matéria apresenta o panorama do bushcraft brasileiro como o que a escola aprendeu na conversa com ele. Nas palavras deles, a parte mais fascinante da conversa foi entender como as paisagens do Brasil moldaram a tradição daqui. Dali vêm as passagens sobre a Mata Atlântica e a Amazônia, onde a umidade torna difícil algo básico como acender fogo, sobre o Cerrado, com madeira dura e água como preocupação na seca, e sobre a Caatinga, onde o que vale é conhecer as plantas que guardam água.
A herança é creditada a ele com todas as letras: o texto diz que o Dambrós descreve a influência dos velhos mateiros, dos vaqueiros e dos sertanejos, ao lado do conhecimento que vem dos povos indígenas do Brasil. Não entra como enfeite, entra como origem.
A rede ganhou destaque próprio. Rede com mosquiteiro e lona em vez de dormir no chão, por causa da umidade, dos insetos e da chuva. A escola chamou isso de exemplo fascinante do princípio de adaptar técnica e equipamento ao ambiente.
O crédito é inteiro dele, e vale dizer como aconteceu: a conversa começou porque ele escreveu para a escola. E o que veio de volta não ficou só com ele: virou visibilidade para o jeito de fazer bushcraft que é o nosso.
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Seção nova: de onde vêm as coisas que a gente usa
Estreia aqui uma seção sobre a origem do objeto, da técnica e da palavra que o meio usa todo dia. A primeira é a kuksa.
O bushcraft que a gente pratica junta objeto, técnica e palavra de muitos povos do mundo, e a origem nem sempre viaja junto com a peça. Esta seção existe para devolver essa parte, uma por edição.
A primeira já está publicada no blog, e é sobre a kuksa. O nome vem de guksi, em sámi. Os Sámi são o povo indígena do norte da Europa, de Sápmi, um território que atravessa Suécia, Noruega, Finlândia e chega à Rússia. Lá o copo faz parte do duodji, o artesanato das coisas de uso, e há indício de uso desde por volta de 3000 antes de Cristo.
Tem também uma razão técnica bonita para a peça nascer do nó da bétula, e não da madeira reta: no nó, a fibra cresce embaralhada, sem direção única, e é isso que faz o copo não abrir no veio e aguentar água fervendo no frio. O que nos leva à pergunta que a matéria deixou aberta: qual é a nossa madeira de nó?
A seção vai olhar também para as palavras, inclusive as que a gente usa para nomear o que faz. Bushcraft é palavra emprestada, e no Brasil existe quem prefira mateiro, vida mateira ou termos vindos do tupi. Aqui não se vai decidir quem tem razão: o que interessa é registrar de onde cada palavra veio e o que ela carrega. Cada um chama do jeito que faz sentido para si.
Tem uma parte do processo que quase nunca é contada e que separa a peça boa da peça rachada: a secagem. O nó é desbastado até uma forma bruta e depois seca devagar, às vezes por semanas, antes de receber o acabamento. É nessa etapa que a pressa cobra o preço, e é igual em qualquer madeira do mundo, inclusive na sua.
E há uma camada que não é técnica. A guksi tem uso ligado a hospitalidade, a receber quem chega. Isso não vira dica de acampamento aqui, e não é para virar. Fica registrado como é, porque faz parte do que a peça significa para quem a fez primeiro, e porque contar só a parte útil de uma tradição alheia é uma forma silenciosa de apagá-la.
Nas próximas edições a seção vai para o mato dos Orang Asli, na Malásia, onde a umidade e a floresta fechada criam os mesmos problemas que a gente conhece; para os poços de sucção dos San, no Kalahari, que resolvem falta de água de um jeito que conversa com a Caatinga; e para a makiri dos Ainu, no norte do Japão, faca de trabalho que também é faca de entalhe.
Seção nova: o calendário do mundo
O que a gente mapeia é gente, e a agenda vem junto como consequência. Aqui entram duas ou três datas de fora por edição, pelo que elas ensinam a quem organiza encontro no Brasil.
Em novembro, nos dias 6, 7 e 8, acontece o Georgia Bushcraft Fall Gathering, em Watkinsville, na Geórgia, Estados Unidos. É encontro com camping, instrutores e uma feira de expositores junto, formato que vale olhar de perto para quem organiza encontro por aqui. Cai no mesmo fim de semana do Guilda Bushcraft, em Brasília, que está aqui na agenda mais adiante, do outro lado das Américas.
Em 2027, de 28 a 31 de maio, o The Bushcraft Show, em Stanford Hall, na Inglaterra, a maior feira-encontro do Reino Unido. Os ingressos já estão à venda, e há uma promoção de 25 por cento que vence em 31 de agosto, ou seja, dois dias depois desta edição sair.
O Spoonfest 2027, festival internacional da colher entalhada, em Edale, na Inglaterra, já tem data: de 5 a 8 de agosto, com um pré-festival de 3 a 5. E aqui vai um detalhe que quase não circula em português: os ingressos abrem em 6 de março de 2027 e esgotam rápido. Quem sonha em ir precisa estar pronto em março, não em julho.
E o que eles ensinam, já que a promessa desta seção é essa. Três coisas aparecem nos três, e nenhuma delas é cara: a feira de expositores acontece dentro do encontro, e não do lado de fora, o que faz o cutuqueiro, o cuteleiro e o artesão terem público garantido sem montar evento próprio. O ingresso abre com meses de antecedência, às vezes um ano, e isso não é frescura de organizador: é o que permite a quem mora longe planejar viagem, folga e dinheiro.
E existe o pré-festival, que é um encontro menor e mais quieto nos dias que antecedem o grande. Quem chega antes ajuda a montar, aprende com calma e vive a parte que não cabe na programação. Qualquer encontro brasileiro pode fazer isso amanhã, sem gastar um real a mais, e alguns já fazem sem chamar por esse nome.
O que ainda cabe no seu ano
Quatro encontros até o fim do ano, todos com data fechada. E dois deles caem no mesmo fim de semana, em estados diferentes.
Outubro tem o EMCG, o Encontro dos Mateiros, de 16 a 18, na Granja Terraço do Mocó, em Massaranduba, na Paraíba. Cem reais, com fogo primitivo, cestaria, culinária mateira, nós e amarras, entalhe e palestras. Vale um aviso: a data mudou no meio do caminho, era outubro mais cedo. Quem anotou o número antigo, corrige aí.
Novembro concentra três. De 6 a 8, o Guilda Bushcraft, no Clube Campestre Gravatá, em Brasília, com três dias de arqueria, oficinas e desafios. De 20 a 22, o 11º ENGB, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio, com três dias e mais de seis palestras. E nos dias 21 e 22, o Bushcraft Weekend em São Paulo, da Escola Costa Bushcraft and Survival, com ferramentas de corte, nós, tarp, fogo, pão de caçador e trilha.
Repare que os dois últimos se encavalam: o ENGB começa numa sexta e vai até domingo, e o Weekend paulista pega o sábado e o domingo do mesmo fim de semana. Quem estava contando ir aos dois vai ter que escolher, e é melhor descobrir isso agora do que em novembro.
Vale um conselho de quem já foi a encontro dos dois tipos: encontro grande e encontro pequeno servem para coisas diferentes, e não adianta cobrar de um o que só o outro entrega. No grande você conhece muita gente, vê equipamento que não veria de outro jeito e assiste a quem admira. No pequeno você conversa de verdade, aprende com a mão na massa e sai com telefone de gente que vai virar parceria. Se der para ir a um de cada tipo no ano, é o melhor arranjo.
E uma coisa prática que ajuda quem organiza: inscrição antecipada não é burocracia, é o que permite comprar comida na conta certa, dimensionar banheiro e água, e não deixar ninguém na chuva. Quem confirma na última hora empurra o risco todo para o organizador, que quase sempre está pagando do próprio bolso enquanto não fecha a conta.
Todos estão abertos a quem quiser chegar, e a agenda sai do mapa: é lá que ela é atualizada quando algo muda, com local e quem organiza.
Se você organiza encontro e a data não está aqui, manda. Entra na próxima edição e no mapa, sem custo. E se você vai a algum deles, avisa: encontro fica melhor quando a gente sabe quem mais vai estar lá.
Atenção do mês: a água some antes do mato secar
No fim da seca, a preocupação sai do fogo e vai para a água. O ponto que você conhece pode não estar mais lá.
Quem caminha nesta época costuma planejar a água pelo que lembra da última vez. É aí que mora o problema: no fim do período seco, córrego pequeno e nascente de cabeceira baixam muito, e alguns simplesmente param de correr. O ponto que serviu em maio pode não servir agora.
A regra prática é sair com a água do trecho inteiro nas costas e tratar qualquer coleta como bônus, não como plano. Fonte de mato, nesta altura do ano, está mais concentrada e mais parada, o que aumenta a chance de contaminação. Filtro ou fervura, sempre, mesmo em água que parece limpa.
O ar também cobra. Nos meses mais secos, a umidade relativa cai bastante no interior de São Paulo, e a desidratação chega antes da sede: dor de cabeça no fim da tarde, boca seca, disposição caindo sem motivo aparente. Beber por horário funciona melhor do que beber por vontade.
Quanto levar, na prática: para caminhada em calor, a conta que costuma funcionar é meio litro a um litro por hora de trilha, mais o que for cozinhar e lavar. Parece muito porque é muito. É por isso que trecho longo no fim da seca pede planejamento de água antes de planejar qualquer outra coisa da mochila.
E vale a pergunta que quase ninguém faz: alguém esteve lá recentemente? Um recado num grupo ou uma mensagem para quem organiza o local resolve em minutos o que a memória de um ano atrás não resolve. Fonte de água é a informação que mais envelhece rápido, e a que mais gente trata como fixa.
E o de sempre: quem vai ao mato sozinho avisa alguém do trajeto e do horário de volta. É a única medida de segurança que não pesa na mochila.
Prática da quinzena: entalhe uma peça e diga a madeira
A pergunta da matéria da kuksa só se responde com muita gente comparando o que já aconteceu na própria bancada.
A prática desta quinzena é simples e junta as duas pontas da edição: entalhe alguma coisa, do tamanho que der, e conte qual madeira você usou.
Pode ser colher, copo, cabo, cunha, qualquer peça. O que interessa é a informação que quase nunca vem junto com a foto: a espécie, onde você achou a madeira, se estava verde ou seca, e como ela se comportou. Se você já pôs líquido quente numa peça sua, isso vale ouro.
Poste no seu perfil marcando o arroba picoaltobushcraft com a tag praticadoalto, ou responda direto no grupo. O que chegar vira matéria na próxima, com o crédito de quem contou.